Linhas de afeto

 

“Pesco aqui há vinte anos”, conta-nos David. “Na altura, o espaço foi-nos cedido pela Petrogal e tomámos conta disto. Depois, uma empresa madeirense comprou o Cais do Ginjal e deixou-nos ficar.” As ruínas urbanas são paisagens em suspensão, fica-se à espera de uma mudança que lhe devolva utilidade. Mas, muitas vezes, no abandono de elementos físicos, desvanecidos os sinais de posse, aparece alguém que lhe dá um propósito. No Cais do Ginjal, os pescadores David e Mário são os autores do destino de um dos edifícios. Quando não vão para o rio, estão aqui a preparar a pesca do dia seguinte. O espaço está ocupado com todos os artefactos necessários à atividade, começando nos quilómetros de linha e acabando na tabela impressa das marés. Não faltam um rádio e uma televisão que, à laia de companhia, os mantêm a par da atualidade. Zara, a cadela preta, e o seu cachorro, Pete, espreguiçam-se nas suas camas improvisadas em alguidares, pouco cúmplices com o trabalho dos donos.

A faina começa às cinco da manhã, altura em que saem de barco para largar o “aparelho”, gíria do termo palangre, que consiste num alguidar grande com um rebordo de cortiça onde se espetam os cerca de 300 anzóis presos em mais de dois quilómetros de linha. No “Bate mal” exploram parte do Mar da Palha, desde a Ponte Vasco da Gama, até à Torre de Belém, na outra margem. Regressam por volta do meio-dia com dezenas de quilos de peixe que será vendido à lota da Costa da Caparica. Dependendo da época, apanham corvina, dourada ou robalo, mas mesmo quando não pescam nada, David diz não se importar porque “acaba por compensar estar no mar e ver o sol a nascer”.

É assim todos os dias, garante, uma vez que “o peixe é que manda”. Acrescenta que nunca ficam à espera, “vamos sempre à procura dele. Se estiver a dar, pescamos todos os dias”. Admite que é um vício porque tem paixão pela profissão de pescador. “Alguma vez eu trocava o meu trabalho por um escritório?”, diz desafiador, mas também chama a atenção para a dureza deste ofício, “só quem gosta é que aguenta andar o dia inteiro, em cima da água, a levar com chuva, vento e sol”.

Além dos dois, já restam poucos pescadores profissionais na margem sul: um na Trafaria, outro em Olho de Boi e alguns na Cova do Vapor, que trabalham com redes.

David mostra-se pouco apreensivo com os planos de reabilitação para o cais, “não acredito que vão construir, morro eu primeiro”, diz, a rir, porque desde os anos 90 do séc. XX se sucedem propostas de intervenção urbana para o Cais do Ginjal e até agora nenhuma obteve consenso.

Este é também um lugar de convívio para os amigos reformados que partilham o amor pela pesca e pelo rio. Todos os dias se juntam para almoçar na cozinha improvisada no andar de cima, um ritual que para muitos é um momento de família. Todos colaboram com tarefas, seja pôr a mesa ou lavar pratos, mas quem cozinha é Mário, sendo certo que a ementa é peixe fresco quase todos os dias. “É muito raro comer carne” explica Mário, “apesar de criarmos galinhas, patos, coelhos e porcos, aqui ao lado”. Ficámos assim a saber que, paredes meias, estes pescadores ainda arranjam tempo para cuidar de uma pequena quinta e de uma horta. “A nossa comida é toda saudável. Só precisamos de comprar arroz, azeite e uma cervejinha”, remata Mário, orgulhoso.

Dificilmente se adivinharia uma relação ainda tão íntima com o rio, uma espécie de último reduto de ligação à natureza e de autossuficiência, num contexto tão urbano como é o desta margem. Também dificilmente se adivinharia que o interior de uma paisagem de ruínas acolhe a mais generosa das paisagens humanas. David e Mário contam como se faz. A porta fica entreaberta. 

 

Margem oposta

 

Da arriba ao rio Tejo vão apenas umas dezenas de metros, ocupados com edifícios em ameaça de derrocada ou já em escombros. Restam alguns com segurança suficiente para lá funcionarem restaurantes ou estruturas de apoio aos poucos pescadores que por aqui andam. A plataforma de acesso de cerca de um quilómetro de comprimento que separa os edifícios do rio é estreita, por vezes não mais de três metros. Apesar dos avisos, enfileiram-se carros, que dali só saem de marcha atrás. No entanto, o Cais do Ginjal, estrategicamente virado para Lisboa e perto da foz do Tejo, foi um importante entreposto comercial e complexo industrial até há cinquenta anos atrás. Diariamente, daqui partiam e chegavam inúmeros navios de pesca e de transporte de mercadorias, muitos com destino além-mar. Entre Lisboa e Cacilhas, registava-se ainda uma permanente travessia de pessoas e bens em barcos mais pequenos. Por fim, o cais também acolhia a azáfama dos muitos pescadores locais de então. Até que, em 1966, o longo sonho da Ponte 25 de Abril se concretizou e rapidamente destronou esta auto-estrada fluvial.

“Isto tinha muito movimento, nem imaginam”, confessa um dos poucos pescadores amadores que encontramos. Percorrendo o cais moribundo, é realmente difícil reconstituir esse passado e imaginar como a cada uma das portas e janelas partidas correspondiam armazéns e escritórios em plena atividade, que empregavam centenas de trabalhadores. Sentado no pontão, com a linha lançada ao rio, este reformado diz apreciar a paz e a vista, afiançando que “nada nos incomoda aqui. Podemos pensar”.

Hoje, o maior movimento do Cais do Ginjal está centrado no terminal fluvial de Cacilhas usado pelas pessoas que vivem numa margem e trabalham ou estudam na outra. De resto, a maior parte das pessoas vêm aqui para apreciar o desenho luminoso de Lisboa, na margem oposta. Curiosamente, de um lugar que perdeu qualquer privilégio obtém-se uma das vistas mais privilegiadas sobre a cidade.

Por serem solarengas e salubres, as encostas viradas a sul são as preferidas para povoamento, como foi o caso da capital. A margem virada a norte ficou destinada a servir de apoio à metrópole e ao restante país. Mas a ligação do Cais do Ginjal ao rio e a Lisboa deixou de ser esta. Nem de lazer ainda conseguiu ser. Enquanto se aguarda se um ambicioso projeto de reabilitação consegue ou não sair do papel, ninguém sabe o futuro desta frente ribeirinha. Como gostaria que fosse?