Desenho

 

A aldeia da Azinhaga encosta-se ao rio Almonda momentos antes de este se encontrar com o Tejo. O crescimento da povoação acompanha o sentido natural do rio, como se a água a levasse com a corrente. Aqui tudo é plano. Estamos em pleno vale do Tejo, em terras resgatadas ao rio através de contínuos processos de drenagem. Perante a ausência de relevo, a paisagem é definida pelas linhas de água, leitos de cheia, pauis, valas e diques. É um território de água transformado num imenso contínuo de solo agrícola. A planície parece não ter fim, evocando os fundadores Tigre e Eufrates. Por momentos, ficamos com a sensação de que a humanidade poderia ter nascido aqui.

As poucas referências geográficas dificultam uma navegação à vista. Olhamos o mapa para verificar o caminho. A planície está riscada por uma série de estradas em linha reta cuja autoria e origem se desconhece. Porquê aquela diagonal ou aquela ligeira curva? Como terão os primeiros desenhadores deste lugar decidido onde riscar? As poucas formas geométricas perfeitas são círculos, resultado dos sistemas de rega que giram em torno de um eixo. Mas a maioria dos campos são formados por retas, dando origem a polígonos de variadíssimas formas, cujos limites são como as linhas de uma mão antiga. O desenho desta paisagem vem de longe e nem mesmo com a força da agricultura moderna se consegue apagar.

Paisagem escrita

 

Chegamos à Azinhaga. O que nos traz até aqui é uma outra paisagem. Vamos até ao Largo das Divisões, entramos na antiga escola primária e sabemos que estamos no lugar certo. Lemos a frase: “O que há mais na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou”. Aqui, no espaço da Fundação José Saramago, encontramos uma paisagem escrita que tudo acrescenta à outra por nós vivida. Como se uma paisagem infinita não chegasse, Saramago deixa-nos outra, que se multiplica eternamente a cada novo leitor.

No passadiço da Azinhaga, existente ao longo do rio Almonda, somos acompanhados por painéis com passagens da obra de José Saramago, cuja escrita nos revela um escritor-leitor de paisagens. Através da sua obra, podemos seguir esse olhar sobre o entorno e com ele acrescentar uma nova camada ao nosso modo de ler o mundo. Como se as paisagens escritas, vividas e imaginadas, fossem também construtoras das paisagens físicas. Porque tudo se constrói a partir do entendimento de si mesmo. Aproveitemos então esta passagem pela terra natal de Saramago para iniciar uma viagem escrita, começada aqui pela nossa mão, junto a este caminho estreito, que do árabe trouxe o nome de azinhaga.