Linha de Fronteira

 

O nome da aldeia sugere a ideia de fim. Estamos no extremo, no limite de um país que guardou aqui o sentido de uma terra livre (ou terra salva).

Chegados ao povoado, termina o alcatrão. Para se avistar o anunciado fim há que seguir por terra batida e por caminho de pé posto. À medida que avançamos o caminho vai estreitando, por vezes quase que lhe perdemos o rasto, como se a qualquer momento terminasse e com ele acabasse a Terra.

Seguimos envoltos por uma mata a quem foi devolvido um território outrora habitado. De quando em quando há que passar um muro ou contornar uma furda (pocilga), testemunhos desse tempo passado. Aos poucos a mata vai clareando, anunciado o fim do caminho. No chão, a terra é substituída por rocha, tornando mais difícil o sustento e suporte da vegetação. A mata termina. Agora é só granito e um vale abrupto. Estamos no extremo.

Junto às escarpas do vale do Erges, no limite de Salvaterra do Extremo, somos confrontados com a ideia de uma terra dividida. Aqui o rio separa Portugal de Espanha, é linha de fronteira. Esta linha, que separou povos, suas leis e línguas, faz parte da mais antiga fronteira da Europa. Em 1297 foi assinado, entre os reis de Leão e Castela e de Portugal, o Tratado de Alcanizes, onde se definiram as fronteiras dos reinos, ainda em vigor nos dias de hoje.

De imediato nos surge a questão se as fronteiras dos países são também as fronteiras da paisagem. Ou como e onde começa ou termina uma paisagem?

Aqui só há um vale e só há um rio. Um só vento que nos traz o som da água do Erges. As escarpas das duas margens pertencem à mesma rocha e os animais e plantas não se distinguem no idioma. Os vestígios de presença humana são escassos. No lado espanhol, um castelo abandonado (“Castillo de Peñafiel”), no português, uma Atalaia em vigília. São construções de uma só paisagem. Uma paisagem de fronteira.

Vale de Xálima

 

O rio Erges nasce na Serra de Gata (Espanha) e desagua na margem direita do Tejo, fixando, na maior parte do seu percurso, a divisão entre Portugal e Espanha. Ao longo desta linha de fronteira, o Erges corre por canhões fluviais, resultado da força erosiva deste rio ainda selvagem. Numa curta distância (entre Monfortinho e Segura), a força da água escavou três impressionantes gargantas graníticas com escarpas que chegam aos 150 m de altura.

Porém, este rio, que desenhou a linha que viria a ser fronteira, é também um rio território. Como se aqui ainda habitasse um povo anterior aos dois países.

Ao longo do seu vale perdura uma variedade linguística galaico-portuguesa. No vale de Xálima ou vale do Ellas (Eljas ou Erges), na parte ocidental da província de Cáceres, há cerca de 5.000 pessoas que ainda usam a fala de Xálima, também conhecida por galego estremenho ou valego. No vale há três variações da língua, com os nomes de manhego (mañegu), valverdeiro (valverdeiru) e lagarteiro (lagarteiru).