Conversa em torno da exposição Caminhar pelo Leito, Navegar na Margem.

Com a participação de Álvaro Fonseca, Francisco Pinheiro e Nuno Barroso, do coletivo West Coast, e Margarida Carvalho, do Museu da Paisagem.

Esta conversa com Álvaro Fonseca, Francisco Pinheiro e Nuno Barroso, do coletivo West Coast, decorreu no dia 8 de janeiro de 2020, na Culturgest, no contexto da sua participação no Anthropocene Campus Lisboa: Parallax organizado pelo Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia. No âmbito deste Campus, o coletivo West Coast, que é igualmente composto por Laura Marques e Paulo Morais, foi convidado a apresentar a performance e instalação Caminhar pelo Leito, Navegar na Margem, que se desenvolvia a partir de vários objetos, vídeos e sons recolhidos durante duas residências realizadas, em outubro e novembro de 2019, em Vila Velha de Ródão (região do Tejo Internacional) e Atenor (região do Douro Internacional). Estas residências inserem-se no projeto Guarda-Rios[1] que incide sobre os territórios ribeirinhos, aprofundando práticas de investigação, registo, criação artística e partilha que valorizam a relação com as pessoas e realidades locais.

Foi igualmente a partir de objetos, sons e vídeos, oriundos destas residências, que o coletivo criou a exposição online Caminhar pelo Leito, Navegar na Margem, que pode ser visitada no Museu da Paisagem, uma plataforma digital de cariz museológico dedicada à paisagem que, desde junho de 2019, se constituiu como associação científica e cultural sem fins lucrativos com sede na Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa.

 

Esta conversa incidiu essencialmente sobre os processos de trabalho de campo e de criação do coletivo, que apresentam uma dimensão marcadamente relacional e dialógica, baseando-se em práticas de encontro e partilha como princípios de criação artística e de conhecimento. Passados cerca de três meses após este encontro, vivemos um período de profunda crise global devido à pandemia COVID-19, em que as práticas de confinamento e isolamento social se tornaram a norma para fazer face à calamidade da propagação do vírus, gerando um efeito de quebra abrupta da atividade social e económica, e a expansão de práticas de trabalho e socialização à distância, mediadas pelas tecnologias digitais. Ecoando esta pandemia, reencontramos o espectro do Antropoceno, que pontuou a nossa conversa na Culturgest, anunciando a humanidade como essa força de mutação profunda e imprevisível do ambiente.

 

Margarida Carvalho: De que forma é que estes objetos invocam memórias e narrativas associadas à vossa experiência das residências?

 

Francisco Pinheiro: Para mim essa relação com o objeto, não ancora necessariamente numa memória específica. São coisas que trouxemos mas que muito rapidamente se tornaram coisas em si mesmas, por exemplo, este crânio não me faz lembrar o dia em que passei por ele.

 

Nuno Barroso: A mim faz! Eu lembro-me de ter agarrado naquilo e dito, Francisco, calma. E até estivemos a brincar, eu pu-lo, assim, em cima da tua cabeça.

 

Francisco Pinheiro: Eu tenho uma memória associada à pena do grifo porque a retirei lá do comedouro, tenho com a pá do remo, coisas muito específicas, por exemplo as pedras roladas fazem-me lembrar aquela caminhada que tivemos com a Graça nos olivais, que de repente são olivais com pedras roladas.

 

Nuno Barroso: Mas, por exemplo, eu não estava nessa caminhada com a Graça mas automaticamente penso no período pré-glacial porque aquilo era tudo o leito da bacia do Tejo, portanto todas essas coisas que pensas que não têm significado, depois podem ser extrapoladas para outras leituras.

 

Francisco Pinheiro: Ali à volta de Vila Velha de Ródão e das Portas de Ródão há muito esta presença da pedra rolada que tem a ver com essa época pré-glacial em que havia mais água do que terra.

 

Nuno Barroso: Estava barrado pela crista quartzítica.

 

Francisco Pinheiro: Havia mais água, portanto o Tejo tinha um caudal bem maior, não era um rio, era um lago, um lago-mar, e o que é interessante é que estes vestígios das pedras, na verdade indicam que ali já esteve água; daí a importância das pedras roladas, são vestígios da água nessa fase pré-glacial. E isso é muito forte, é muito presente, e de repente nós, que ficámos hospedados na Tapada da Tojeira, onde foi o CENTA, que era este centro de pesquisa e de residências associado à performance e ao corpo, coordenado pela Graça Passos, mas que é onde fazem produção de azeite biológico, quando fomos ver os olivais, donde extraem esse azeite, vimos que estavam cheios destas pedras roladas. Cheio, cheio, parece que de facto houve ali qualquer coisa que se passou, que alguém deixou aquelas pedras para trás. Isso são coisas muito fortes quando estás numa paisagem, que não é aquela em que estás bem habituado a estar, e estes marcos, indicam esse passado pré-glacial. As próprias Portas de Ródão também o indicam, à medida que a água foi recuando, embora passando por ali, ela foi escavando as próprias Portas de Ródão, como um canyon.

 

Nuno Barroso: E também na própria arquitetura, as casas nessa zona são uma mistura de xisto e calhau rolado que fica muito bonito, faz uns padrões.

 

Álvaro Fonseca: As paredes das casas e alguns muros usam realmente o xisto em camadas alternadas com o calhau rolado e é um padrão lindíssimo. A presença deste tipo de pedras traz essa memória de um tempo muito estendido, por um lado falam da presença da água, por outro lado, falam destas escalas de tempo. Porque há aqui estas diferentes camadas que têm a ver com uma acumulação de tempo, por um lado, e também com uma acumulação da evolução da própria paisagem, a evolução natural mas também a provocada pela presença humana. Portanto, e de repente, estas diferentes camadas de tempo e da evolução do próprio espaço misturam-se todas. E à medida que estás a caminhar na paisagem estas várias camadas vão surgindo. Eu agora estou aqui a esta distância e, de repente, posso questionar-me e ter uma preocupação narrativa, mas quando lá estava, não me estava tanto a interrogar, porque há um lado muito sensorial dessa experiência que tem ali mais a ver com uma experiência direta. Essa experiência tem uma dimensão estética, como por exemplo no caso das paredes das casas, que me atraiu logo, porque achei lindíssimo, aliás porque também já conhecia, já tinha visto, e quando voltei lá, disse para comigo mesmo, “Cá está!”. E depois também essa utilização dos diferentes tipos de materiais rochosos, os xistos, os quartzitos, estas pedras roladas, o granito. Nas zonas onde há granito, porque depois há essa mudança ali naquela paisagem, transitas de zonas onde o xisto é a rocha mais abundante para, de repente, zonas onde vês o granito, por exemplo, quando te aproximas de Salvaterra do Extremo e do Erges, o granito passa a estar não só na paisagem mas também nas construções, nos muros e casas.

 

Margarida Carvalho: Esta é uma pergunta que não tem diretamente a ver com os objetos em si mas mais com o projeto Guarda-Rios. Há uma relação que vocês acabam por ter do corpo com a paisagem, porque muito do trabalho que vocês fazem é caminhar. Essa questão de uma relação corporal com a paisagem, no fundo este caminhar nas paisagens e esta proximidade com a paisagem, envolve completamente os sentidos, o corpo e há um lado também necessariamente afetivo, porque passa por uma vivência que vocês fazem na paisagem. De que modo é que estes aspetos se manifestam neste projeto e na vossa prática?

 

Álvaro Fonseca: Eu estive só num dos locais, no Tejo, não estive no Douro, mas realmente durante aquele tempo que nós estamos ali, há uma intensidade dessa presença na paisagem, uma intensidade que se relaciona com o facto de estares ali com a tua curiosidade e com os teus sentidos muito atentos e imersos;  realmente algo que tenho muito presente é essa intensidade das várias coisas que te vão afetando. Existem estímulos visuais, sonoros, o contacto com as pessoas, por exemplo, ouvires histórias; essa presença dentro da paisagem tem realmente essa coisa extraordinária de poderes aceder a todas estas formas de te relacionar e de conhecer. E cada um tem atenções diferentes, há o olhar de cada um ou a sensibilidade de cada um. Por exemplo, eu tenho especial atenção pelas plantas, e por vezes dialogamos sobre isso, alguém que pergunta qual é aquela planta, e conversamos sobre isso, ou em relação às arquiteturas.

 

Nuno Barroso: Há uma predisposição, estás mais atento, estás mais aberto, é quase uma atitude meio jornalística, se alguém te dá uma pista, tu vais meter conversa, vais tentar perceber, vais tentar levar aquilo para um determinado caminho. É uma questão de ir puxando fios e ver onde é que eles vão dar, às vezes não vão dar a lado nenhum, outras vezes abrem-se portas para outras coisas e acho que isso tem muito a ver com a nossa predisposição, de já estar no ponto, em que mesmo que não esteja numa residência, mantenho este canal ligado. E, de repente, isto pode ir para muitas direções, tanto pode ser uma coisa que está lá no rio e agora estás na Culturgest em Lisboa com cem pessoas a ouvir o que é que tens a dizer sobre uma pedra e acho que isso é desafiante. No outro dia, estava numa casota de madeira no meio do campo a instalar um microfone cá para fora e, agora, aquele som está a sair daqueles caixotes que estão ali naquela sala [da Culturgest] e isso tem piada.

 

Francisco Pinheiro: A forma como o processo se traduz, se transforma.

 

Nuno Barroso: A forma como se transforma e como chega aos outros.

 

Álvaro Fonseca: Sim, ainda por cima o facto de estarmos aqui a convite de uma iniciativa que se relaciona com o pensar do Antropoceno e as narrativas do Antropoceno e, de repente, ainda se tornou mais evidente que um dos objetivos do projeto, que tinha a ver com aceder às diferentes camadas da paisagem, te está a dar pistas sobre o Antropoceno. E também ouvir as pessoas falarem sobre aquilo que nós trouxemos. Por exemplo, quando se pega numa esferovite. Alguém estava a falar disso, no dia seguinte à apresentação aqui [performance a partir dos objetos], não é olhar para a esferovite e dizer “Já está tudo poluído!”. Não, é de repente a esferovite convocar uma narrativa que se relaciona com a situação em que ela foi recolhida, o que é que aquilo quer dizer, a própria dinâmica do rio que levou a que aquela esferovite fosse encontrada, e subitamente tu estás a olhar para aquilo que são as paisagens do Antropoceno mas que não têm uma narrativa única, que têm uma diversidade e uma riqueza enorme de narrativas, que às vezes são contraditórias.

 

Nuno Barroso: Mas há um lado que eu gosto muito de pensar também, que não é só esta questão do ambiente mas que é a dimensão da identidade. Nas residências estás com pessoas que não estão propriamente num centro urbano, com as quais podes ter relações de memória, porque cresceste ali, ou porque os teus pais eram dali. Interessa-me esta interação mais social, de encontrar pessoas e de ver a realidade do que é este território do país.

 

Margarida Carvalho: E essa relação com as pessoas como é que se traduz depois no vosso projeto?

 

Nuno Barroso: É algo que ainda está a ser trabalhado, pelos conteúdos que elas nos dão, às vezes tem um lado um bocado etnográfico, outras vezes pode ter um lado de histórias que elas nos contam, pistas para o lugar. De repente, nas minhas fotografias, encontro lá umas personagens, embora eu na altura não estivesse muito inclinado a fotografar pessoas, e de repente quando vejo aquelas personagens é plástico, é absurdo, não sabes donde é que eles vêm, e isso do ponto de vista criativo, para mim, tem interesse porque eles também falam sobre esta identidade do país. Então, da próxima vez que eu for, eu quero mais, eu tenho esta imagem na cabeça, por exemplo, que não fiz que era quando o Francisco e a Laura estavam a falar com o Escalo (pescador do Douro), naquela tasca cheia de homens, fumarenta, todos com calças de ir à caça, e aquela imagem para mim é tão forte e significativa, diz muita coisa sobre aquele lugar. A mim interessa-me esta mistura, o que é a natureza e o que são estes lugares, como é que nós somos hoje.

 

Francisco Pinheiro: Há um espelho também do que é que somos na cidade, faz-me um bocado ver ao espelho, do que é que falta aqui, e o que é que existe à volta, estas realidades que acabam por cobrir uma grande parte do território enquanto que as cidades acabam por ser ilhas. Mas sobre a questão do corpo, que levantaste, acho que é muito importante. Da forma como eu tenho sentido estas residências, esse corpo começa logo por quem nos hospeda, por quem é anfitrião. Os nossos anfitriões são pessoas que têm um conhecimento, que têm um lugar, que se torna a nossa base, e são elas que fazem a mediação com outras pessoas, é muitas vezes a partir delas que vamos ter com outras pessoas que vamos encontrando. Normalmente, em termos de produção, as pessoas ficam num hotel, num sítio neutro, e para mim tem sido muito importante começar por alguém que está dentro deste contexto e que tem a sua própria vivência e experiência, que tem a sua própria visão do que é que aquilo poderia ser, o que é que foi.

 

Margarida Carvalho: Há uma partilha, também. Há uma generosidade, uma linguagem da generosidade, és recebido por pessoas com quem estabeleces uma relação.

 

Francisco Pinheiro: Há uma relação humana. Por exemplo, na segunda residência no Douro, foi da parte do José e da Bárbara a iniciativa de criar um jantar com algumas pessoas que vivem por ali e que têm ligações com música, uma veterinária, eu apreciei bastante essa oportunidade de termos ali um momento de convívio com pessoas que já têm ali uma relação no território. E depois é contigo, depende da forma como podes ou não aproveitar isso, e eu sinto muito que há um tentar dominar, da nossa parte, de um certo tipo de linguagem que quanto mais dominarmos, mais facilmente entramos nas conversas e mais facilmente consegues criar uma relação. Eu não sei como é que é do lado de lá, eu acho que eles devem sentir que não somos daquele meio, mas que somos curiosos e que nos estamos a reajustar, e por isso também falam e gostam de partilhar.

 

Álvaro Fonseca: A forma de estar nos lugares é muito importante, uma vez que também temos de considerar que há uma duração determinada da residência, nós já vamos com uma certa predisposição. Há esta vantagem, de facto, de poderes mais rapidamente te inserir porque és mediado por pessoas que te acolhem; mas depois depende muito da nossa forma de estar, neste sentido da escuta, de praticar uma certa sensibilidade em relação ao sítio em que estamos. Não no sentido de que vimos da cidade para observar.  Mas realmente estares ali, numa escuta e numa atenção, procurando cruzar as várias coisas que te vão chegando, numa atitude de modéstia, no bom sentido desse termo, de estar com uma abertura. Aquilo que eu sinto ali é que existe uma identidade muito forte que está ligada ao território e ao tempo. Mesmo num território relativamente pequeno como aquele, tu vês que quando vais de Vila Velha de Ródão para os Perais ou para Monforte da Beira ou para Salvaterra do Extremo, que há ali algo que não é exatamente igual, e vais ouvindo e vais lendo isso na paisagem. Essa identidade, que também se relaciona com determinadas práticas ligadas ao território, tem sofrido imensas mudanças, aspetos que também se relacionam com um julgamento do exterior e com uma desvalorização de certas práticas. As pessoas falam do presente e do passado e vamos desconstruindo alguns mitos, há aspetos positivos e negativos dessas mudanças. Mas há ali qualquer coisa de uma dureza e de uma mudança que parece puxar as coisas para um lado, há uma perda de identidade das ligações ao território, há um sentimento de perda, que é algo que me afeta, que me ficou dentro do corpo, até. Há uma riqueza que tu vês que está à beira de se perder.

 

Nuno Barroso: Em Trás-os-Montes há uma defesa muito maior desse património e dessa identidade. Há muita gente a trabalhar na música, em conservação da natureza, nas espécies autóctones, pessoal novo que vem de fora e que se envolve nestas associações. A zona do Tejo Internacional, na Beira Baixa, é incomparável. Há esse trabalho de conservação da natureza, porque há o parque natural entre outras coisas, mas do ponto de vista cultural é muito triste o que se está a passar ali.

 

Francisco Pinheiro: Mas ainda voltando à dinâmica do estar presente no território e de como é que as coisas acontecem, como é que conhecemos as pessoas, por exemplo, por telefone, eu, que não conhecia ainda a Bárbara, soube por ela que havia um coro ali da aldeia de Atenor, que foi onde ficámos hospedados. De repente tinha na minha lista, o coro. E quando estávamos lá, a Bárbara, como percebeu que a Laura estava mais relacionada, talvez, com a voz, porque a Laura tem uma pesquisa relacionada com voz, procurou combinar com ela uma visita ao coro. E nós na altura adiámos para a semana seguinte, porque estávamos ocupados. Mas quando fomos ao coro conhecemos uma série de pessoas, para além das gravações que fizemos e de algum cancioneiro que aprendemos relativo a este tema da raia, e de repente conhecemos ali uma senhora e ficámos um bocadinho à conversa. O Nuno, no dia seguinte foi tomar café de manhã, porque ele tinha o ritual de ir tomar café à Cristina, e encontra essa senhora que mostra que está disponível para nos levar a ver uma fragas que têm as formas de umas garras, a que eles chamam as garras do demónio, ou algo assim, e subitamente a senhora, que devia ter os seus sessenta ou setenta anos, vem connosco a pé. E já estamos a alterar a vida daquela pessoa, que faz uma caminhada connosco, e que nos leva a ver uma coisa que não está no Google Maps, não está nos mapas turísticos, e de repente esta pessoa torna-se um guia, de uma coisa muito específica, que fez parte de um mito, porque achavam que debaixo dessas fragas, que têm a forma dessas garras, viviam ali mouros. Existem lá umas inscrições algo misteriosas, que não sabem donde é que vêm, que não conseguem datar e de repente estamos com alguém local que nos mostra qualquer coisa que também tem muito a ver com esta relação entre aquilo que chamamos “o povo lusitano” e os “outros”, os “mouros”, no fundo chegamos à questão de “nós” e os “outros”.

 

Margarida Carvalho: Muitas camadas que vocês vão encontrando na paisagem, das pedras, do tempo, da identidade.

 

Francisco Pinheiro: Estamos a falar de identidade, porque é que os mouros iriam viver ali? E isto leva-nos para outro tipo de imaginário e questões e tudo porque aconteceu, de facto, irmos ao encontro daquele coro. Isto é tudo tão intenso, que por vezes pensamos, será que vale a pena guiarmos as nossas energias para estes encontros? Mas é muito especial e, de repente, há qualquer coisa que acontece. E eu aprendo muito com eles nesses processos, enquanto um já está a dar a volta, alguém diz, mas esperem há ali qualquer coisa.

 

Margarida Carvalho: Para terminarmos, se continuarem a recolher objetos, vocês vão ter, no final do projeto, uma imensa coleção de objetos.

 

Nuno Barroso: Acho que a recolha tem a ver com os processos. Como nós ainda não tínhamos materiais de criação, estes objetos colmataram logo de início uma necessidade de que existisse alguma coisa física que transportasse estas histórias, estes conteúdos, estas narrativas, mas agora, à medida que o projeto se for desenvolvendo, eu gostava que estes objetos, estes fragmentos, fossem cada vez mais coisas criadas por nós. Eventualmente haverá ainda objetos mais particulares que, se calhar, ainda vamos trazer de determinados sítios e que podem complementar esta coleção, mas, pelo menos eu, acho que estes objetos vão começar a ser substituídos por aquilo que nós vamos criar em cima desta narrativa.

 

Margarida Carvalho: Como se os objetos tivessem sido um ponto de partida criativo.

 

Álvaro Fonseca: Sim, parece-me que eles têm esta qualidade, de facto, de ajudarem a ancorar as memórias do local, das impressões, das histórias, das várias camadas. Há realmente esse poder que parece que eles têm e que, de repente, ainda por cima de uma forma não premeditada, se ligam com algo - que foi o que aconteceu aqui [performance na Culturgest]. Estamos ligados a um evento que está a pensar esta questão do Antropoceno e, subitamente, apareceu claramente esta dimensão de que estes objetos, no fundo, são sinais, sintomas, formas de falar sobre o Antropoceno. E neste contexto, surge também a questão da sustentabilidade, que se relaciona com a possibilidade de podermos continuar a ter uma relação com qualidade e apreciar, no fundo, aquilo que são as formas de estar e de fazer no sentido de uma possibilidade de continuidade. Porque o Antropoceno, para mim, representa algo que pode provocar a descontinuidade. Há aqui alguma coisa que paira, uma coisa um pouco apocalíptica, de um colapso, que o Antropoceno poderá ter como desfecho. E, para mim, a sustentabilidade relaciona-se com continuidade e, de repente, aqui, estes objetos estão todos a falar sobre isso e acho isso lindíssimo e, como eu tenho um percurso que não está tanto ligado às práticas artísticas, percebo agora que afinal estas dimensões, que chamamos arte e ciência, são tudo formas de conhecimento e de percebermos o mundo que está à nossa volta.



[1] Projeto apoiado pela Direção-Geral das Artes / República Portuguesa